Assim como muitos vegetarianos, essa amiga ainda consome o leite, seus derivados e ovos. É a tal categoria ovo-lacto-vegetariana. Aí um dia estávamos tomando um sorvete e ela lá se lamentando porque se sentia culpada. Porque coitada da vaca que passa o tempo todo com as tetas cheias de leite, com aquelas maquininhas que sugam o leite dela enquanto o bezerrinho não pode mamar na mãe dele, e que muitas vezes fazem o tal baby beef com o pobrezinho, e que isso é uma maldade e tal. Enquanto isso eu olhava minha bolsa de couro do lado e pensava em como é bom o cheirinho do couro, em como eu adoro coisas de couro... Depois ela emendou no assunto do ovo, e que coitada da galinha, porque é uma maldade roubarem o ovo da pobre coitada, que aquele ovo poderia virar um pintinho, e que estavam roubando o filhote da mãe etc, etc. E tudo isso ilustrado por cenas de documentários que mostram toda a crueldade feita aos animais. Pois muito que bem. No dia seguinte eu fui passear em um sítio e descobri que o ovo só dá pintinho se estiver galado, ou seja, se a galinha cruzar com o galo, e que a galinha só liga pro ovo quando está choca. Fora isso ela põe ovos todos os dias e não está nem aí se você vai lá no ninho e pega. E é claro que quando o objetivo do ovo é o comércio ele não está galado, porque ninguém é maluco de vender um ovo com pintinho dentro. Quando voltei tratei logo de mandar um recado consolador dizendo que ela poderia comer ovos sem culpa. Aí agora ela me vem com esse Power point falando das maldades com as galinhas? Fala sério!
Fora essas histórias da maldade ainda tem as neuroses. A criatura não usa qualquer sabonete porque a maioria é feita com ingredientes retirados de animais. Xampu, só usa se não for testado em animais, assim como maquiagem, óleo de banho, etc. Toda vez que vai comprar algo lê a composição pra ver do que é feito e se não é testado em animais. Vê se pode. Como se algum ser humano normal fosse capaz de entender aquele monte de palavrões que vêm escritos nos rótulos das coisas. Eu hein! Bolsa, só se for de couro ecológico, aquele de fazer sofá. É a famosa bolsa de sofá. Cafonérrima, por sinal. E como se não bastasse, fica falando das crueldades enquanto a gente está comendo carne perto dela. Ou vocês acham que eu vou ao Mc Donald’s e peço uma salada (que eu nem gosto) só por causa dela? Nunquinha. Peço logo o hambúrguer de carne bovina maior que tiver. E quando não está falando está mandando correntes.
Eu já falei pra ela que a missão do frango no mundo é a minha panela. Quando não é a panela é o forno, a frigideira... e por aí vai. A vaca existe pra dar leite pra gente e proporcionar o couro para a feitura de bolsas, sapatos, cintos... É assim que funciona, é a cadeia alimentar. Além do mais, ninguém está a salvo. Se uma pessoa for fazer um safári lá na África corre o risco de ser devorado por um leão. Se uma pessoa se perder no meio da Floresta Amazônica corre o risco de ser devorado por uma onça. Sendo assim, vamos devorar as vacas, as galinhas, os porcos e seus derivados, porque assim ficamos quites com a natureza. E também, coitados dos vegetais, tão indefesos. Ficam lá na horta, não têm nem a chance de se defender, correr... vão direto para a panela. Em algumas religiões da Grécia antiga acreditava-se que os vegetais eram o começo da evolução dos espíritos. Um espírito vinha ao mundo pela primeira vez em forma de verdura. Depois alguém comia aquela verdura e o espírito evoluía e virava uma arvorezinha, e assim por diante, até virar um ser humano que era o fim da evolução, o ponto máximo onde poderia chegar. Daí podemos concluir duas coisas: uma é que o homem é o topo e isso não se discute mais. A outra é que devemos maneirar nos vegetais porque corremos o risco de comer um futuro membro da família. Nunca se sabe. Então é isso, por hoje é só. Um beijo para todos e um bom churrasco no próximo domingo, mesmo que seja de alcatra, na laje e ao som do funk da Gaiola das Popozudas. Porque domingo sempre rola um churras...

